News · OpenAI apoia ronda seed da Merge Labs para desenvolver interfaces cérebro-computador
OpenAI apoia ronda seed da Merge Labs para desenvolver interfaces cérebro-computador
O investimento enquadra as BCIs como um problema de interface, com a camada de modelo posicionada como o elemento que lê a intenção a partir de sinais neuronais ruidosos.
A interface, não o dispositivo, é a aposta
A OpenAI abre o anúncio com uma afirmação sobre a história da computação, e não sobre neurociência: "O progresso nas interfaces permite o progresso na computação. Cada vez que as pessoas ganham uma forma mais direta de expressar intenção, a tecnologia torna-se mais poderosa e mais útil." Esta frase revela como a OpenAI está a interpretar este investimento. A Merge Labs é descrita como uma empresa que constrói interfaces cérebro-computador, mas a OpenAI trata a BCI como o mais recente elo de uma linhagem que passa por teclados, ratos e ecrãs táteis — um canal mais direto para expressar intenção.
Este enquadramento é importante porque separa duas coisas que muitas vezes se confundem. Há o problema de hardware de fazer a interface com o cérebro de forma segura e com maior largura de banda, que a fonte atribui à combinação da Merge de "biologia, dispositivos e AI (mantém-se o acrónimo em inglês)". E há o problema de software de transformar o que sai desse hardware em algo sobre o qual uma máquina possa agir. A OpenAI está a reivindicar explicitamente esta segunda camada.
AI (mantém-se o acrónimo em inglês) como sistema operativo para sinais ruidosos
A afirmação de engenharia mais concreta do anúncio é esta: "as interfaces de elevada largura de banda vão beneficiar de sistemas operativos de AI capazes de interpretar a intenção, adaptar-se a cada indivíduo e funcionar de forma fiável com sinais limitados e ruidosos." Retirando a linguagem de vanguarda, isto descreve um problema de inferência complexo. Os sinais neuronais são esparsos, específicos de cada pessoa e cheios de ruído; convertê-los numa intenção fiável está mais próximo daquilo que os grandes modelos já fazem com inputs ambíguos do que do firmware de dispositivos convencional.
É aqui que a leitura de "frontend" se torna literal. Numa aplicação comum, o frontend renderiza estados e capta eventos determinísticos — um clique, uma tecla premida. Um frontend de BCI não tem eventos determinísticos. O input é uma distribuição de probabilidade sobre o que a pessoa poderá querer dizer, adaptada a cada utilizador, que se degrada e recupera ao longo do tempo. A OpenAI está a posicionar os seus modelos como o runtime que resolve essa distribuição em ação. É uma função muito diferente de alimentar uma caixa de chat.
O que a OpenAI está de facto a contribuir
O anúncio identifica dois contributos além do capital. Primeiro, AI para "acelerar a investigação e o desenvolvimento, incluindo bioengenharia, neurociência e engenharia de dispositivos" — modelos aplicados à própria ciência do laboratório. Segundo, e mais específico à interface, a OpenAI afirma que "vai colaborar com a Merge Labs em modelos de base científicos e outras ferramentas de vanguarda para acelerar o progresso." São apostas distintas: uma usa AI para construir o dispositivo mais rapidamente, a outra integra AI na capacidade do dispositivo de compreender o seu utilizador.
A equipa fundadora reflete a mesma divisão. Os investigadores — Mikhail Shapiro, Tyson Aflalo e Sumner Norman — são reconhecidos por terem sido pioneiros em "abordagens totalmente novas para BCI", o lado da biologia e dos dispositivos. Os empreendedores, incluindo Alex Blania, Sandro Herbig e Sam Altman "a título pessoal", cobrem o lado da construção da empresa. É de notar que a participação de Altman é pessoal, enquanto a da OpenAI é corporativa, uma distinção que a fonte tem o cuidado de sublinhar.
A implicação: a OpenAI trata os métodos de input como parte do seu território
Para as equipas que constroem sobre os modelos da OpenAI, o sinal aqui não é que as interfaces neuronais estejam iminentes. É que a OpenAI está a definir o seu território de forma a incluir a própria maneira como os humanos expressam intenção às máquinas — não apenas o que acontece depois de chegar um prompt. A empresa descreve as BCIs como "uma forma natural e centrada no ser humano de qualquer pessoa interagir sem esforço com a AI", o que coloca o modelo nas duas pontas da interação: a interpretar o input e a gerar a resposta.
Se esta tese se confirmar, a camada de interface deixa de ser um detalhe de integração a jusante e passa a ser algo que um fornecedor de modelos de base quer possuir. Quem estiver a desenhar a captura de intenção para sistemas de AI — mesmo os convencionais — deve interpretar este investimento seed como uma declaração sobre onde a OpenAI entende que deve residir a interpretação da intenção, e planear em conformidade para um mundo onde se espera que seja o modelo, e não a aplicação, a tornar compreensível o input humano ambíguo.
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